segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Descompasso da Conquista


Flávio Gikovate - Novembro/1999

Costumamos dizer que o homem é menos romântico e mais conquistador, caçador. Por outro lado, pensamos nas mulheres como criaturas mais interessadas em relações amorosas duradouras, que possam levar a vínculos estáveis, matrimoniais. Será verdade? Acredito que sim, mas penso que temos de entender melhor essas diferenças entre os sexos.

Um pouco tem a ver com a biologia e outro tanto está ligado a nossa educação. O que não adianta é insistirmos na idéia da igualdade, já que não é assim – ao menos por enquanto. Precisamos nos esforçar para evoluir, mas não podemos negar nossa maneira atual de ser nem subestimar as dificuldades e a demora nas mudanças de comportamento.
Na cabeça do homem, a aventura da conquista tem um caráter essencialmente sexual e está profundamente relacionada com a vaidade. Todos nós lembramos com mágoa os primeiros anos da adolescência, quando nos sentíamos fortemente atraídos pelas mulheres e elas não nos davam bola. Durante anos alimentamos fantasias de que um dia as coisas seriam diferentes. Haveria um tempo em que teríamos sucesso profissional, econômico, intelectual e social – e por causa disso elas iriam prestar mais atenção em nós.

Viramos adultos, aprendemos muita coisa e nos aprimoramos na arte da cantada. À medida que conseguimos êxito, partimos para outras tentativas. Vamos das situações mais simples e mais fáceis às mais complicadas, isto é, para a abordagem das mulheres que parecem ser as mais atraentes e difíceis. Tudo se torna então um jogo de auto-afirmação, cujo alvo é neutralizar o sentimento de inferioridade que acumulamos na puberdade.

A conquista e a intimidade sexual, além de prazerosas, nos fazem sentir vencedores. Depois que esse objetivo é alcançado, a regra geral é que a mulher deixe de ser desejada: o jogo terminou e a alternativa agora é rumar para outra aventura, se possível mais difícil e mais trabalhosa. O ego dos homens se infla com essas experiências e a questão amorosa só surge por acaso, quando a mulher o impressiona particularmente.
Acredito que, mesmo sem clara consciência, as mulheres intuem que é assim que funciona a cabeça dos homens. Por isso sempre tentam prolongar o tempo do flerte e donamoro, tornando difícil a intimidade sexual. A vaidade feminina se satisfaz mais fácil e rapidamente que a masculina. Ser paquerada na rua já é massagem para o ego e isso não existe na vida dos homens (ah, como adoraríamos que elas também mexessem conosco!).


A própria insistência masculina durante esse período faz muito bem à alma feminina, pois na fase da conquista os homens são muito cordiais, atenciosos e as tratam como se tivessem visto nelas tudo o que sonharam numa mulher. Sendo assim, e como elas temem que a relação sexual seja o início do fim do relacionamento – e isso corresponde à realidade, ao menos na maior parte das vezes –, existe uma tendência para o prolongamento máximo dessa fase.

Devido ao fato de que, no início, o homem se posiciona como criatura adorável, satisfazendo todos os caprichos da sua eleita, o que acaba acontecendo é que ela se apega emocionalmente a ele. Começa a desenvolver sentimentos de ternura e passa a sonhar com uma ligação mais estável. Ao falar sobre isso, o homem diz que o mesmo ocorre com ele, pois não quer perder pontos diante de sua "presa".


Acontece que a mulher está falando a verdade e ele não – é regra geral. Quando finalmente se dá a intimidade sexual, ele se sente vitorioso e tende a perder todo o interesse. A mulher, até mesmo por força da educação milenar ainda presente em nossa geração, envolve-se mais ainda. Está assim composto o dilema que acaba por determinar um forte sofrimento para a mulher, o que agrava ainda mais a fama que o homem tem de aproveitador romântico.

Nenhum comentário:

Postar um comentário